O vento era gelado. Subia pelos pés, calçados com “chinelos de dedo” tão gastos, que dava para sentir o calçamento de pedras ou cascalho que recobriam parte das principais ruas da cidade de Guarapuva no Paraná. Foi no ano de 1963. O frio chegava até acima dos joelhos, onde se encontrava com as barras da calça curta que usava. Subia pelas mãos até às mangas da camiseta, propaganda de bebidas. Batia os dentes e não conseguia segurar o corpo, que tremia com as rajadas do minuano soprando do Sul. Segurava-se na soleira da vitrine e contemplava, com os olhinhos vidrados, cheios de esperança, a quantidade enorme e variada de brinquedos, que rodeavam um Papai Noel de gesso, que lhe transmitia um sorriso falso, pré-fabricado, dando a entender que aqueles brinquedos já estavam destinados a outras crianças de melhor sorte. E, mais uma vez o menino suplicava, por meio do olhar e da imaginação, sem poder falar, o seu direito em ter um mínimo de alegria, como a grande maioria de seus semelhantes, naquela noite venturosa.Antoninho, (era o nome dom menino), ficou ali por longos minutos, talvez não pelo desejo de querer um daqueles presentes, mas pela falta de coragem inconsciente, em voltar para casa, sabendo que a única ceia que teria, seria um resto de feijão, arroz, dois pedacinhos de lingüiça e farinha de milho, que a mãe guardara do almoço. Estava cansado, trabalhara o dia inteiro, engraxando sapatos, vendendo sorvetes, jornais e flâmulas de times.Encontrava-se no centro da cidade e sua casa era numa vila distante, há uns quatro ou cinco quilômetros dali. Tinha medo, não da distância, que estava acostumado a caminhar todos os dias, mas por ter que chegar a casa. Encontraria o pai triste, por não ganhar dinheiro suficiente, nem para comprar comida, quanto mais para algum presente. Medo em ver a mãe rodeando aquele fogão encarvoado para esquentar o resto de comida ao filho. Sabia que ela, também, ainda estava com fome e exausta por trabalhar o dia inteiro, cuidando dos outros filhos, inclusive sofrendo porque os dois menores estavam muito doentes. Medo de ouvir o pai desabafando para a mãe a triste situação financeira pela qual passavam. Medo em ter que dormir no chão, num colchão fininho, perto da parede cheia de frestas por onde passava o vento e poderia passar, também, algum animal peçonhento. Medo de ver a mãe chorar mais uma vez e o pai com as mãos sobre a testa, pensando em questões sem soluções.Despediu-se do Papai Noel de gesso rodeado de brinquedos e encontrou muitas outras pessoas de pedra pelas ruas, por onde caminhava e pensava, “o que poderia comprar com os dois cruzeiros que conseguira ganhar naquele dia de trabalho”? Parou em frente à Igreja. Estava aberta. Perto do altar havia um Presépio. Ajoelhou-se, rezou como sabia e cumprimentou o Menino Jesus de porcelana. Encontrou no bolso uma moedinha e ao lançá-la na caixinha aos pés de São José, disse para Nossa Senhora, que estava ao lado, “este é meu presente a Jesus para ajudar a senhora comprar umas roupinhas, para que ele não passe frio igual a tantas crianças no mundo”.Deitado, com os pés ainda gelados pelo frio, mas em seu coração quentinho havia preparado um lugar para Jesus nascer. Faltavam quinze minutos para a meia noite. Ele esperava o sino da igreja anunciar o Natal. Não agüentou, o cansaço era tanto, que superou sua ansiedade e suplantou, também, suas dores físicas e emocionais. Antoninho adormeceu e sonhou que Jesus lhe dissera: “obrigado pelo presente que você me deu”.*(Fato real adaptado da vida do autor)
Publicado no site: O Melhor da Web em 16/12/2008 Código do Texto: 8777
Sustentabilidade Humana
O ser humano por sua própria natureza é sutentável. Mas, também, pela mesma natureza pode tornar-se degradável e, até, descartável. Dotado do livre arbítrio ele pode optar pelo direcionamento do próprio destino. Tudo depende dele. A inteligência, o pensamento, a vontade, a fé e os sentimentos estão em seu interior. Ele até pode contar com forças externas, como a graça divina, mas terá que abrir-se para ela. A possível sustentabilidade do ser humano é o objeto primeiro desta página.