Naquele abençoado último ano do Milênio, eu completaria, em maio, quarenta e sete anos de idade. Em janeiro iniciara um, tão sonhado, Curso de Doutorado. Membro de uma belíssima e encantadora família. Minha esposa, professora de Língua Portuguesa, recém formada em Direito. Meus dois filhos, um com doze e o outro com quinze anos, respectivamente. Grandes projetos pessoais, um futuro brilhante e promissor na vida profissional, prometiam fazer de mim o homem mais feliz do mundo. A vida me sorria, como o maior presente que recebi de Deus.Porém, qual uma espessa cortina negra, caiu-me diante dos olhos o anátema do médico anunciando, após alguns exames, que eu estava com câncer. Era um nódulo de aproximadamente cinco centímetros e, provavelmente, maligno, localizado no interior da bexiga. A ordem era que eu procurasse um hospital de oncologia, o mais breve possível. Foi como dizer que tudo estava acabado. Vi a morte nos próximos seis meses. A princípio não tive coragem de contar para a família. Minha esposa, quando tomou conhecimento, abandonou tudo e acompanhou-me naquela dolorosa “via crucis”. Depois da terceira cirurgia, a equipe médica do primeiro hospital orientou-a para que voltasse para casa e cuidasse dos filhos e da vida, porque meu organismo não tinha mais forças para resistir. Iriam fazer uma nova cirurgia apenas para desencargo de consciência, como manda a ética médica. Não desistimos. Contra tudo e contra todos, minha esposa sozinha, me transferiu para outro hospital. Mais vinte e poucos dias de UTI e a quarta cirurgia. A esperança voltava acender-se em nosso coração.Durante o tempo de agonia, o que me marcou muito foi o fato de um dia ter manifestado, a um casal de enfermeiros, que meu último desejo seria tomar um banho de cachoeira. Estava a três semanas sem poder colocar uma gota de água na boca. No outro dia, na hora do banho de leito, eles apareceram com uma grande bacia e um jarro de água natural. Posicionaram minha cabeça fora do leito e pediram que eu imaginasse estar debaixo de uma grande cachoeira. Confesso, ainda com lágrimas de gratidão, que foi o mais belo banho de cachoeira que lembro ter tomado em toda minha vida. Aqueles anjos me fizeram ver que "viver é melhor que sonhar". Hoje, quando escrevo este texto, estou com cinqüenta e dois anos, completamente vivo e feliz.
*Texto enviado para concurso em 2004
Nenhum comentário:
Postar um comentário